O desenvolvimento e sucesso dos alimentos tuning assenta em vários princípios, mas devo salientar os seguintes:
- Princípio do “tudo o que é ‘natural’ não pode fazer mal”
Esta rima idiota parece justificar a utilização de milhares de cházinhos e ervinhas que dizem fazer o mesmo que a medicação vendida em farmácias. Mas, ao contrário dos medicamentos, os cházinhos, por serem naturais, nunca, em situação alguma, poderão fazer algum mal.
- Princípio dos alimentos sem aditivos nem conservantes (Anti-Tuning)
Tudo o que se come, mas tem escrito na embalagem “sem aditivos nem conservantes” pode ser enfardado de forma megalómana, mesmo que seja o maior veneno do mundo.
- Princípio dos alimentos aditivados (Tuning)
Este surge como uma errata ao princípio anterior - um alimento terá vantagem em ser aditivado caso esta alteração faça bem à tensão, colesterol ou trânsito intestinal - mesmo que este efeito seja veiculado por bolinhas sorridentes e com olhos, ou bolhinhas ‘pro-activas’.
Com fundamentos nestes três princípios surgem inevitavelmente aditivos que, quando adicionados a garrafinhas de iogurte líquido, ganham propriedades mágicas, gnomopatológicas.
Passo então a descrever alguns aditivos extraordinários que merecem a atenção de todos os leitores.
- O aloés
O aloés é, como toda a gente sabe, a panaceia universal para qualquer doença, além disso lava a roupa, dá sorte e, se for esfregado na testa, revela os números do euromilhões.
A aloevera é um cacto - como tal, é ‘natural’ e não pode fazer mal (novamente esta rima hedionda - mais uma vez e queimo a língua!). É utilizado em iogurtes, champôs e sabonetes. Assim, em generalização extrema, ou nos lavamos com iogurte ou andamos por aí a comer detergente.
- As Resinas
As resinas são substâncias às quais são atribuídas várias propriedades, de entre as quais se destaca (e a mais anunciada) a de reduzir o colesterol.
Até aqui muito bem! - não fossem estas incorporadas em manteigas e margarinas e anunciadas como maravilhas salutares!
Assim, o mais comum dos mortais nem deverá ligar às resinas - deve é enfardar manteiga até sair pelas orelhas e ficar a pulular todo contente com o colesterol de um bebé!
- Os bífidus
Os Bifidus Activus são super-bactérias que ajudam a regular o trânsito intestinal, acelerando-o. Este efeito era conhecido já anteriormente sob o nome de Leitus Estragadus, só que não era tão bem comercializado.
- As bolas e bolhinhas
Quando falamos de aditivos devemos também preocupar-nos com a forma como eles exercem o seu efeito.
Neste contexto vou fazer uma retrospectiva para anúncios anteriores e falar do principio da actuação de detergentes como o SKIP e o OMO-máquina. Nestes anúncios, o fantástico poder desengordurante dos detergentes era veiculado por bolinhas sorridentes ou bolhinhas luminosas que ‘atacavam’ a gordura.
Ora, se o aloés dá para os dois lados, também as bolhinhas terão este efeito - daí surgem as bolhas de actimel, órgão executivo das famosas bactérias L Casei Immunitas.
Resumem-se assim dois elementos críticos na actividade dos aditivos alimentares:
- As bolas sorridentes, com um efeito directo sobre o colesterol, intestino e tensão arterial;
- As bolhas protectoras, protegendo globalmente o indivíduo de qualquer agressão externa. As bolhas de actimel estão actualmente a ser estudadas para substituir os coletes anti-bala e os capacetes de mota.
Para terminar, deverá ser feita uma breve menção a alguns aditivos subestimados pelos analistas de marketing. Neste contexto, acho completamente idiota não serem promovidos os franguinhos e porquinhos com hormonas de crescimento! - o bem que não fariam às criancinhas mirradinhas!
Estamos a entrar numa era em que o tuning alimentar se sobrepõe ao anti-tuning, na qual as farmácias se verão substituídas por mercearias onde se venderão fatias de queijo anti-hipertensão e fiambre para a próstata.
«Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.»
(Antoine de Saint-Exupéry)
